22/08/2023
Cotidiano Em Alta Saúde

Enfermagem protesta contra coação e anuncia paralisação em Guarapuava

Cerca de 40 profissionais se reuniram em frente à instituição nesta sexta (29). Categoria denuncia ameaças do RH da empresa terceirizada, descumprimento do piso nacional e projeta demissão em massa


Segundo advogado, objetivo do ato foi expor publicamente supostos abusos cometidos pela gestão terceirizada (Foto: Vittor Guimarães/RSN)

Dezenas de profissionais de enfermagem se reuniram em um protesto em frente ao Hospital Regional de Guarapuava na tarde desta sexta (29). A manifestação foi motivada por denúncias de assédio moral e coação individual que teriam começado na noite anterior, após a empresa terceirizada CIS emitir avisos prévios com supostas inconsistências jurídicas para cerca de 270 colaboradores.

A categoria, que recebe um salário-base de R$ 1.700 desde fevereiro sob a promessa de complementação do piso nacional, rejeitou em duas assembleias consecutivas a proposta da empresa de parcelar o retroativo em oito vezes sem o registro do piso na Carteira de Trabalho (CTPS). Como resposta, o RH da empresa iniciou uma ofensiva de desligamentos e pressões internas, culminando na convocação de uma paralisação legal para a próxima terça, dia 2 de junho, a partir das 13h.

DENÚNCIAS DE COAÇÃO E APAGÃO ASSISTENCIAL

De acordo com o advogado do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Guarapuava (SEESSG), Victor Andrade, o objetivo do ato foi expor publicamente os abusos cometidos pela gestão terceirizada.

“O objetivo é mostrar todos os abusos cometidos pela empresa CIS, que não está fazendo o pagamento correto. Há um piso e isso não está sendo respeitado. Votamos rejeitando a proposta desrazoável de um parcelamento muito longo, de oito vezes. A classe apresentou duas outras propostas, também rejeitadas. Eles não querem que o piso conste na carteira porque isso vai afetá-los financeiramente”, explicou o assessor jurídico.

Andrade confirmou ainda que o RH da empresa vem pressionando os colaboradores individualmente e em pequenos grupos a aceitar condições degradantes. “Está havendo coação.”

Cartaz diz: “Coagindo intensivamente seus colaboradores” (Foto: Vittor Guimarães/RSN)

O estopim para a revolta foi a chegada da responsável pelo RH da CIS de Londrina, na noite de quinta (28). Conforme relatos de enfermeiras presentes, a abordagem foi intimidatória. “A moça falou de um jeito esnobe. A nossa enfermagem foi tratada como lixo”, desabafou uma profissional. Outra colaboradora questionou as promessas financeiras feitas sob pressão: “Quem aceitasse seguir com o CIS ia ter o valor parcelado em 8 vezes e, na folha de julho, viria o restante do piso que não veio na carteira. De onde vão tirar esse dinheiro?”.

Além do assédio, os avisos prévios entregues contêm um erro técnico que coloca em risco a segurança dos pacientes: os documentos preveem que os trabalhadores em regime de 12×36 saiam duas horas mais cedo (às 15h ou 17h, dependendo do plantão). Na prática, os profissionais estão trabalhando essas duas horas de graça por obrigação ética, para não abandonar os leitos.

PODER PÚBLICO NÃO SE MANIFESTOU

Uma das principais queixas dos manifestantes é o isolamento institucional. Embora o CIS gerencie a assistência através de um contrato de mais de R$ 82 milhões (n.º 970/2025), o Hospital Regional é uma unidade do Estado.

“Nós precisamos que a Funeas [Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Paraná], que a Sesa [Secretaria de Estado da Saúde] e o diretor do hospital, Fernando Guiné, se manifestem também. Desde fevereiro estamos esperando o piso. Hoje, o único apoio que nós temos é o sindicato. O poder público até agora não se manifestou. As pessoas trabalham com muito amor aqui dentro”, cobrou uma das técnicas de enfermagem.

COMO FICA O ATENDIMENTO À POPULAÇÃO?

Diante do impasse e da previsão de que cerca de 270 profissionais sejam de fato desligados em junho — sob a alegação da empresa de que “contratará novos funcionários porque há muita gente querendo trabalhar” —, a categoria organizou a paralisação do dia 2 de junho seguindo estritamente os ritos legais para evitar punições judiciais ou prejuízos severos aos pacientes.

Hospital Regional (Foto: Arquivo/RSN)

O sindicato garantiu que a mobilização respeitará os limites da lei de greve em serviços essenciais. “Estamos fazendo tudo dentro da lei para não ter respingo em cima de nós. O paciente de forma alguma vai ser prejudicado, porque vamos deixar exatamente a porcentagem correta que pode aderir à paralisação”, garantiu uma liderança do movimento.

O advogado Victor Andrade reforçou a necessidade da manutenção dos serviços críticos. “A gente sempre esteve à disposição para negociar com o CIS. A enfermagem não pode parar. É necessário, no mínimo, 30% [do contingente] na UTI. Estamos considerando isso. Essa mobilização é absolutamente necessária.”

O Portal RSN entrou em contato com a assessoria do CIS e com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) para obter posicionamentos sobre as denúncias de coação, as inconsistências nos avisos prévios e o futuro do atendimento no Hospital Regional de Guarapuava. A Sesa diz que já houve cobrança formal ao CIS para o pagamento do piso. Até o momento, a empresa não retornou o contato da reportagem.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. 📧 thiagodeoliveirajor@gmail.com

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