22/08/2023
Blog da Cris Paraná Política

Na RPC, Moro mostra disciplina, mas coerência vira o centro da disputa

Moro saiu da entrevista sem grandes tropeços, mas com uma questão maior: até onde a régua ética permanece intacta quando o pragmatismo eleitoral entra em cena?

Sergio Moro em entrevista à RPC (Foto: reprodução/ Youtube)

A entrevista de Sergio Moro à RPC, nesta segunda (14), mostrou um candidato disciplinado, cauteloso e ainda fortemente apoiado na imagem construída no combate à corrupção. Mas revelou também o principal desafio da candidatura. Ou seja: quanto mais Moro transforma a biografia em argumento político, mais passa a ser cobrado pela coerência entre o rigor que defende e as escolhas que fez ao longo da própria trajetória. Isso ficou evidente no debate sobre o auxílio-moradia. Quando juiz, Moro recebeu o benefício mesmo tendo imóvel em Curitiba e chegou a justificá-lo como compensação pela falta de reajuste salarial da magistratura. Questionado agora sobre ética, preferiu lembrar o histórico contra a corrupção. A resposta preserva a imagem, mas contorna o ponto central: legalidade não encerra a discussão sobre privilégio, moralidade e uso do dinheiro público.

A mesma tensão apareceu nos gastos do mandato no Senado. De acordo com os dados apresentados na entrevista, Moro desembolsou cerca de R$ 720 mil em deslocamentos e figurou como o oitavo senador do país com maiores despesas nessa categoria. A justificativa de que escolheu ser um “senador itinerante” é legítima, mas não basta. Ao afirmar que não enriqueceu com os recursos, respondeu a uma acusação que não estava colocada. A questão é outra: qual foi o retorno político e administrativo desses gastos? Para um candidato que promete “choque de gestão”, corte de despesas e eficiência, a própria atuação parlamentar passa inevitavelmente pela mesma régua.

Na relação com Ratinho Junior, Moro mostrou pragmatismo. Evitou o confronto, mesmo após a disputa em torno de propaganda eleitoral, e sinalizou que pretende preservar projetos da atual gestão. Politicamente, faz sentido: romper com um governador popular seria um risco desnecessário. O problema é que essa posição ainda carece de definição. O mesmo vale para a Tabela SUS Paranaense, uma proposta concreta e de fácil compreensão. No entanto, ainda precisa responder quanto custará e de onde virá o dinheiro. Em Foz do Iguaçu, diante das particularidades da fronteira, faltou uma resposta mais específica. Moro apresentou direção, mas ainda pouco detalhamento.

As alianças políticas expõem a maior dificuldade de coerência. Ao apoiar Flávio Bolsonaro, hoje investigado em apurações relacionadas ao Banco Master, Moro sustenta que as investigações devem continuar e que não possui “compromisso com o erro”. É uma resposta juridicamente cuidadosa e politicamente defensável, mas que não elimina o desconforto. Moro não precisa condenar antecipadamente um aliado, mas precisa explicar quais critérios utiliza para escolher as alianças que faz. Na Copel, foi mais consistente: não defendeu reverter a privatização, mas cobrou eficiência e qualidade no serviço.

NÃO FOI RUIM

No conjunto, Moro não teve uma entrevista ruim. Foi seguro, evitou grandes erros e apresentou propostas. Mas deixou claro que a maior força também será a maior cobrança. O eleitor já conhece o ex-juiz e o símbolo da Lava Jato. Agora quer saber se o político consegue transformar reputação em projeto de governo sem perder, pelo caminho, a coerência que o tornou conhecido.

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Cristina Esteche

Jornalista

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