22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava Paraná Política

O encontro com Moro na Festa do Soquete

Na Festa do Soquete, em Guarapuava, um breve encontro com Moro chamou atenção pela reação do candidato e pelo contraste com a postura de outros políticos presentes

Moro na Festa do Soquete (Foto: RSN)

A Festa do Soquete trouxe a Guarapuava, neste fim de semana, muito mais do que uma das mais tradicionais celebrações solidárias da cidade. Em pleno período eleitoral, o salão também se transformou, inevitavelmente, em espaço de circulação política.

Por lá passaram os candidatos ao Governo do Paraná Sandro Alex e Sergio Moro. Também estavam Alexandre Curi, Deltan Dallagnol, Filipe Barros, lideranças e personagens que, de uma forma ou de outra, ocupam o tabuleiro político do Estado. E foi justamente em meio a esse ambiente que um episódio aparentemente banal me chamou a atenção. Eu caminhava pelo salão acompanhada da assessora Francielli Rodrigues e do editor da RSN, Gilson Boschiero, quando encontramos frente a frente com Sergio Moro.

Não havia entrevista marcada e nem a intenção de entrevistá-lo. A intenção era apenas cumprimentá-lo. Moro, de expressão fechada, respondeu ao cumprimento sem qualquer entusiasmo. Em seguida, perguntou se eu queria fazer uma fotografia com ele. Aliás, ele teve muito assédio para fotografias.

Fizemos. E quando a breve cordialidade parecia encerrada, ele deu as costas e começou a se afastar. Foi então que, olhando por cima do ombro, lançou de dedo em riste:

“Você não foi legal comigo naquele dia.”

Confesso: até agora não sei a que dia ele se referia. E talvez esteja aí a parte mais reveladora do episódio.

OS FATOS

Sergio Moro já esteve algumas vezes na RSN. Em cerca de quatro oportunidades, foi entrevistado, questionado e provocado a responder sobre política, decisões, posições e contradições. Como deve acontecer com qualquer pessoa que ocupe, ou pretenda ocupar, uma posição de poder.

Pode ter havido alguma pergunta de que ele não gostou? Certamente. Pode ter discordado de alguma abordagem ou interpretação minha? É absolutamente possível. O que não consigo identificar é o tal “dia” em que eu não teria sido “legal”.

Talvez porque eu não faça entrevistas preocupada em ser legal. Faço perguntas. Esse é o trabalho. Jornalista não entrevista candidato para conquistar simpatia. Não está diante de uma autoridade para agradá-la, massagear o ego ou garantir que ela saia confortável de uma conversa. O compromisso deve ser com o leitor, com a informação e, sobretudo, com o direito de perguntar.

E quem escolhe a política precisa compreender isso. Não se exige de um candidato simpatia permanente. Ninguém precisa distribuir abraços, sorrisos ou intimidades artificiais. Política não é concurso de afabilidade.

DELTAN E FILIPE BARROS

Mas existe uma diferença importante entre não ser expansivo e demonstrar dificuldade em lidar com quem já o contrariou. Foi impossível não perceber esse contraste nessa mesma noite.

Encontrei Filipe Barros. Já tivemos perguntas e respostas ácidas em outra oportunidade. No entanto, cumprimentou, parou e conversou. Encontrei Deltan Dallagnol, que estava acompanhado do deputado Fábio Oliveira. Também houve cumprimento, conversa, civilidade.

Isso não significa concordância política. Muito menos preferência. Significa apenas algo elementar para quem escolheu viver na esfera pública. Ou seja: saber conviver com pessoas que perguntam, criticam, discordam e eventualmente escrevem algo que não agrada.

DESAFIO DE MORO

Política é, antes de tudo, o exercício da convivência com o contraditório. E talvez esse continue sendo um dos maiores desafios de Sergio Moro.

A trajetória foi construída inicialmente em outro ambiente. Como juiz, ele ocupava uma posição na qual fazia perguntas, conduzia atos e proferia decisões. A relação com o contraditório existia dentro das regras do processo, mas não sob a lógica cotidiana da política.

Na política é diferente.

O político precisa ouvir o que não quer. Precisa apertar a mão de quem o criticou ontem. Responder novamente à pergunta que considera injusta. Precisa administrar desconfortos sem transformá-los em questões pessoais. Sobretudo quem pretende governar um Estado.

Um governador não administra apenas os amigos, os aliados, os eleitores fiéis ou os jornalistas que escrevem aquilo que ele gostaria de ler. Governa também para quem discorda, para quem fiscaliza, para quem incomoda e para quem pergunta.

DIFICULDADE COM A CRÍTICA

A impressão que ficou daquele rápido encontro é que Moro ainda carrega para a política uma relação excessivamente pessoal com a crítica. Não posso afirmar que seja rancor. Rancor pertence ao terreno íntimo e somente ele poderia dizer o que sente.

Mas posso dizer o que vi: um candidato que, diante de uma jornalista que apenas se aproximou para cumprimentá-lo, fez questão de recuperar uma antiga insatisfação tão antiga ou tão particular que eu sequer consegui identificar qual era.

Isso diz alguma coisa. Talvez Sergio Moro seja muito bom em lembrar quem, na visão dele, “não foi legal”. Mas política exige outra memória: a de que crítica não é deslealdade, pergunta não é agressão e jornalista não tem obrigação de ser agradável.

Tem obrigação de ser jornalista.

DIFERENÇA ENTRE ESTAR E SER POLÍTICO

Ao deixar a Festa do Soquete, fiquei pensando justamente nisso. Há uma enorme diferença entre estar na política e ser político. Ser político, no sentido mais legítimo da palavra, exige capacidade de diálogo, tolerância ao dissenso e alguma grandeza para não transformar cada crítica em uma conta pessoal a ser guardada.

Moro é candidato ao Governo do Paraná. E talvez, antes de convencer o eleitor de que está preparado para governar, ainda precise demonstrar que aprendeu uma das regras mais antigas e indispensáveis da vida pública: quem deseja o poder precisa aprender a conviver com quem não lhe diz apenas aquilo que ele gostaria de ouvir.

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Cristina Esteche

Jornalista

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