22/08/2023
Brasil Economia

Por que o Ethereum cresce em 2026 mesmo quando o mercado caiu

Enquanto o mercado cripto em geral acumula queda de cerca de 20% no ano, o mercado de ativos reais tokenizados ultrapassou US$ 51 bilhões em valor total

Ethereum (Foto: divulgação)

Há uma separação clara a acontecer no mercado de ativos digitais em 2026, e ela diz muito sobre o momento do Ethereum. Enquanto o mercado cripto em geral acumula queda de cerca de 20% no ano, o mercado de ativos reais tokenizados ultrapassou US$ 51 bilhões em valor total, com crescimento de 40% no mesmo período, segundo análise da Bernstein divulgada em junho de 2026. E o Ethereum está no centro dessa expansão: é na sua rede que 65% de todos os RWAs, ativos reais tokenizados,estão emitidos, incluindo US$ 8 bilhões em títulos do Tesouro americano rodando diretamente sobre a blockchain.

É provável que o valor ethereum em reais ainda não reflita esse crescimento de utilidade. Mas os dados contam outra história.

O trimestre mais movimentado da história da rede

No primeiro trimestre de 2026, a rede Ethereum processou 200,4 milhões de transações, um número que nunca havia sido atingido em nenhum trimestre anterior de toda a sua existência. Representa crescimento superior a 100% em relação ao pior trimestre do ciclo anterior. Grande parte desse volume está concentrado nas soluções de camada 2, como Arbitrum, Optimism e Base, que processam transações com taxas mais baixas e liquidam os dados na cadeia principal, elevando o volume registrado na rede sem congestionar a base.

Segundo Vivek Raman, fundador da Etherealize, empresa focada em conectar o Ethereum ao mercado financeiro tradicional, as grandes instituições passaram a tratar as blockchains públicas como infraestrutura de produção. “Há dezoito meses, os bancos e fundos ainda estavam na fase de prova de conceito. Hoje, as instituições querem mergulhar de cabeça, utilizando cadeias públicas como se fossem a internet.”

Blackrock, JPMorgan e os títulos do Tesouro na blockchain

A adoção institucional do Ethereum em 2026 não é uma narrativa. São nomes concretos. O BlackRock e o JPMorgan lançaram fundos e produtos diretamente na rede, consolidando o Ethereum como principal camada de liquidação para a tokenização de ativos financeiros tradicionais.

Os títulos do Tesouro americano tokenizados são o exemplo mais revelador e atingiram US$ 8 bilhões em valor sobre a rede Ethereum. Esses são ativos reais, emitidos digitalmente sobre a blockchain, que permitem liquidação instantânea em vez dos dois dias úteis do sistema tradicional. Para gestoras e tesourarias corporativas, a eficiência operacional é o argumento mais forte.

O número de investidores que detêm RWAs tokenizados já ultrapassa 917 mil, alta de aproximadamente 60% no ano. As ações tokenizadas, um dos segmentos mais recentes, saltaram de US$ 700 milhões para US$ 1,6 bilhão em 2026, crescimento de 130%.

O Ethereum como combustível de uma nova economia

Uma das características que distingue o Ethereum de outros projetos é o seu modelo econômico. Com o EIP-1559, implementado em 2021, cada transação na rede queima parte do ETH em circulação. Quanto mais a rede é usada, mais ETH é retirado da oferta. Com mais de US$ 45 bilhões em valor total bloqueado em contratos inteligentes e cerca de US$ 84 bilhões em stablecoins rodando na rede, a pressão deflacionária sobre a oferta é real e crescente.

O Ethereum superou o Bitcoin em número de endereços ativos em 2026, segundo dados da semana, impulsionado pela expansão de aplicações descentralizadas, stablecoins e soluções de camada 2. A leitura honesta desse dado, como o próprio relatório coloca, é que o Ethereum cresceu rápido em utilidade sem que isso signifique que o Bitcoin esteja perdendo relevância. As duas redes têm propósitos diferentes. O que muda é que fundos e empresas que antes olhavam apenas para o BTC como exposição cripto consideram agora o ETH como complemento – ou como aposta separada em infraestrutura digital.

O que os analistas projetam para 2026

A Messari concluiu no início do ano que o Ethereum apresentava a relação entre preço e fundamentos mais equilibrada desde o ciclo dos NFTs em 2021. O MVRV Z-Score, indicador que compara o valor de mercado com o valor realizado da rede, sugeria que o ETH estava em zona de valor justo, capaz de atrair grandes fundos de pensão e investidores corporativos.

O Standard Chartered projeta que o ETH pode superar US$ 7.500 ainda em 2026, apontando o crescimento dos ETFs e a tokenização de ativos reais como principais catalisadores. A Steno Research partilha da mesma projeção, citando o ambiente regulatório favorável. A Fundstrat aponta para US$ 4.500 como cenário base, sustentado pela pressão vendedora reduzida e pela maturação técnica da rede.

Infraestrutura que funciona independentemente do preço

O que o momento do Ethereum em 2026 mostra é que a separação entre utilidade e preço pode ser duradoura. A rede processou o trimestre com mais transações da sua história enquanto o preço permanecia abaixo das máximas. BlackRock e JPMorgan lançaram produtos sobre a blockchain enquanto o mercado cripto caía. A tokenização cresceu 40% enquanto o sentimento era de cautela.

Para o investidor brasileiro que acompanha o valor do Ethereum, esse contexto diferencia um ativo com fundamentos reais de um que sobe e cai por especulação. O preço vai refletir a utilidade da rede em algum momento. A questão, como sempre no mercado, é quando.

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Cristina Esteche

Jornalista

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