Visões da violência foi tema na Campo Real

Guarapuava- “A violência, em diversas formas, foi variável fundamental na constituição da nossa sociedade. A ocupação européia do hoje território brasileiro foi feita mediante a destruição de centenas de culturas indígenas e da morte de milhões de ameríndios. Fosse pelo confronto direto em combate, fosse por doenças, escravidão e desorganização de sua vida social, os índios brasileiros foram, em grande parte, dizimados.
A instituição da escravidão, implicando uma dominação violenta, física e simbólica, atingiu os índios e depois, principalmente, a mão-de-obra africana que, durante quase quatro séculos, foi objeto do tráfico. Milhões de indivíduos, provindos de diferentes regiões e culturas africanas, foram trazidos para o território brasileiro, dentro de um sistema de divisão de trabalho internacional.
As diferentes culturas ameríndias e africanas, mesmo violentadas e fragmentadas, participaram intensamente da formação da sociedade nacional. A contribuição européia básica veio por meio dos portugueses, com sua ação político-administrativa expandindo e ocupando o território, trazendo também a língua e o repertório cultural católico-ibérico. Outros europeus incorporaram-se, de modos diferenciados, como os espanhóis, italianos, alemães, e diversos outros grupos étnicos.
Mas a incorporação dessas minorias foi repleta de episódios de arbitrariedade e violência, com situações de exploração e discriminação. Assim, a colonização mercantilista, o imperialismo, o coronelismo, o regime das oligarquias antes e depois da independência, tudo isso somado a um Estado marcado pelo autoritarismo burocrático, contribuiu decisivamente para a vertente de violência que atravessa a história do país.
No Brasil, além de uma rotina de dominação com mecanismos conhecidos de exercício da força física como a tortura, não são poucos os episódios ou situações de conflito com luta aberta, produzindo mortos, feridos e vítimas em geral.
O Estado Novo e o regime militar levaram bem longe o exercício do poder de governos centrais autoritários e antidemocráticos. Mesmo em períodos democráticos, freqüentemente registram-se fatos que confirmam essa vertente. A cordialidade do homem brasileiro precisa ser relativizada e contextualizada dentro desse panorama. Da mesma forma, o jeitinho poderia ser analisado como parte de um repertório no qual a manipulação de poder e de relações, a corrupção e o uso da força têm papel crucial”.
O texto acima foi escrito pelo professor de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilberto Velho, e publicado na revista acadêmica Estudos Avançados.
Com este panorama histórico fica mais clara a compreensão da sociedade brasileira contemporânea. Mas aqui compreensão não pode significar aceitação. Afinal, como aceitar que num país como o nosso, sem guerras explícitas, milhares de pessoas perdem a vida todos os dias vítimas de assassinatos, seqüestros, assaltos, roubos, imprudência no trânsito e tráfico de drogas.
A urbanização acelerada trouxe consigo a sensação de insegurança nas ruas e dentro das casas altamente muradas e cercadas. E essa insegurança não diz respeito apenas à violência promovida pela criminalidade, mas está relacionada com a atuação do Estado.
O poder público tem mostrado a cada dia a incapacidade de enfrentar essa catástrofe e, pior do que isso, é saber que toda essa violência só pode existir com a cumplicidade e ativa participação de grupos da polícia, membros do Legislativo de todos os níveis, setores do aparelho burocrático civil e até autoridades do Judiciário. A corrupção está indissoluvelmente associada à violência, são faces da mesma moeda.
Para o advogado e doutor em Direito Luiz Vergílio Dalla-Rosa(foto), é preciso reprimir a violência sem gerar novos atos violentos. “O caminho religioso é o do perdão, essa foi a novidade do cristianismo na história humana. Se você sinceramente perdoa o agressor você consegue por fim à cadeia de violência. Já na área do Direito, a idéia moderna é que ele seja responsável pelo fim da violência à medida que responsabilize os agressores. Uma vez que a pessoa que gere algum ato de violência seja apenada, não se discute mais a situação”, observa.
Segundo o jurista, para que isso seja alcançado o Poder Judiciário deve agir sem qualquer tipo de discriminação. “Quando o Direito escolhe, seleciona em sociedade aqueles que ele quer retribuir adequadamente e aqueles que não, acaba gerando outra forma de revolta e descontentamento e não cumpre seu papel de por fim à violência. Não é porque a pessoa pertence a uma determinada classe social que ela tenha justificativa para agir violentamente. A sociedade tem que confiar que o Direito vai fazer a justiça com legitimidade e esse é o problema, ter essa credibilidade. Por não confiar, de alguma forma você quer algo a mais por não se sentir vingado. Com uma resposta adequada do Estado tem-se uma satisfação muito maior e as cadeias de violência são interrompidas mais facilmente”, aponta.
O tema “O Direito e a Violência” foi um dos cinco abordados na II Jornada Sobre Violência, que aconteceu na última quinta-feira, 28, nas dependências da faculdade Campo Real. O evento foi proposto pelo Conselho Regional de Psicologia (8ª Região) e teve o apoio da Campo Real.
Cinco visões da violência foram apresentadas e debatidas por professores e comunidade acadêmica após um diagnóstico do problema na cidade. “Guarapuava tem alguns problemas de violência bem específicos, como a violência contra a mulher, contra a criança e o adolescente, e o tráfico e consumo de drogas. Já conseguimos avançar de alguma forma com o Conselho da Mulher, que já trata a causa com um pouco mais de eficácia e temos também uma Delegacia da Mulher, mesmo que não com a estrutura necessária. Conhecendo o diagnóstico do problema é mais fácil fazer uma intervenção direta”, ressalta Dalla-Rosa.

Faltam valores morais
A perda de credibilidade e de referências simbólicas significativas destrói as expectativas de convivência social. Uma sociedade só é viável mediante um mínimo de valores e padrões compartilhados.
Atos que há um tempo eram inimagináveis, como uma agressão a criança ou idoso, hoje já não causa tanta indignação. Tudo está banalizado e aponta um caminho de uma crise ética e moral no qual a família, a escola e a religião agonizam.
A psicóloga Tânia Regina dos Reis Mansano, uma das palestrantes do evento, destaca que hoje em dia não há mais valores morais para permear a sociedade, o que contribui diretamente com a violência. “Valores sociais estão sendo vulgarizados pela nossa sociedade e não há mais uma construção de valores morais como antigamente. Você tem crianças e jovens cada vez mais irresponsáveis, imprudentes e prepotentes. A prepotência e a irresponsabilidade geram uma violência”.
Segundo ela, a violência existe em todos os meios, inclusive em famílias bem abastecidas culturalmente e economicamente. “A desconstrução de valores morais tem chamado muita atenção da Psicologia, porque isso está consumindo a nossa sociedade e está fazendo uma mudança muito grande. Não há mais limites e os pais não estão tomando consciência do que estão fazendo. É preciso ensinar os deveres e tirar essa fantasia de só se falar em meus direitos. Não vamos resolver isso numa discussão, mas se todo mundo fizer a sua parte já é um grande avanço e o primeiro passo pode ser dado em casa. Os nossos filhos não têm passado por frustrações, por conflitos, por limites, pois entre o eu preciso e o eu desejo há uma diferença muito grande e os pais não têm percebido isso. Se conseguirmos mexer com a educação desde a base, com a família se atentando para essa situação, a sociedade vai ficar bem melhor”, comenta.

O medo gera violência
“Vivemos em uma sociedade que se encontra imersa no medo advindo do clima de violência que toma conta de nossa alma. Vivemos em uma sociedade que se encontra paralisada, catatônica mesmo, diante da idéia de que ela, a sociedade, deve tomar uma atitude madura e serena para dar um basta a todo esse cenário que vem se desenhando nas ruas e lares de nossa nação. Tememos o mal que vem se assenhoreando da vida e, para piorar, nos encontramos demasiadamente desfibrados para agirmos como pessoas de bem para reverter essa situação que de modo politicamente correto vem pervertendo todos os valores civilizacionais em nome de um mundo melhor possível, que é conjecturado por almas doentias que desejam apenas dissimular o bem para melhor perverter o que é bom. Para reverter esse quadro plúmbeo urge que revertamos os ares que turvam a visão que temos do mundo à nossa volta e, principalmente, de nós mesmos.”

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