22/08/2023
Mário Luchetta

A janela partidária e a morte dos ideais

A política brasileira encontra-se prostituída, e os partidos, que deveriam ser os guardiões de visões de mundo, tornaram-se balcões de negócios

Luís Mário Luchetta (Foto: divulgação)

O calendário eleitoral de 2026 nos impôs, mais uma vez, o espetáculo deprimente da “janela partidária”. O que deveria ser um instrumento de ajuste democrático transformou-se, na prática, no ápice de um processo de degradação institucional. Testemunhamos uma feira de vaidades onde a coerência é descartada em troca de tempo de TV, fundos eleitorais e conveniências de ocasião. A política brasileira encontra-se prostituída, e os partidos, que deveriam ser os guardiões de visões de mundo, tornaram-se balcões de negócios onde o princípio é a mercadoria mais barata.

A falta de real vivência de ideais é a marca desta transumância política. Filósofos conservadores, como Edmund Burke, estabeleceram que o representante deve ao seu eleitor não apenas o seu trabalho, mas, acima de tudo, o seu julgamento e a sua integridade. Burke ensina que um parlamento deve ser um conjunto de indivíduos unidos pelo interesse nacional, e não um ajuntamento de facções em busca de vantagens paroquiais. No Brasil, o que vemos é o oposto: políticos que mudam de legenda como quem troca de figurino, revelando que a sigla é apenas um adereço para a manutenção do poder.

Essa ausência de raízes ideológicas é o que Russell Kirk chamaria de perda das “Coisas Permanentes”. Quando um líder político abandona seus princípios para abraçar uma sigla de orientação oposta, ele trai a confiança de quem o elegeu e corrói a segurança jurídica da representatividade. A política sem valores é uma carcaça vazia que serve apenas ao capitalismo clientelista, onde o Estado é fatiado entre amigos em troca de apoio parlamentar.

A regeneração da nossa República exige que resgatemos exemplos de integridade que parecem esquecidos nos corredores de Brasília. Recentemente, a obra Páginas da Vida, do Ministro Indalécio Gomes Neto, trouxe lições que deveriam ser obrigatórias para qualquer postulante a cargo público. Indalécio, um gigante que venceu as barreiras da vida através do estudo e do trabalho ético, afirma com clareza que o homem público deve estar acima de interesses menores e ideologias rasteiras.

Essa busca por uma vida reta e estável é o que falta na nossa classe política atual e mesmo no judiciário, que já tem quase feito parte do espectro político tamanho desalinhamento geral. A prática da janela partidária nos entrega políticos voltados exclusivamente para a manutenção de seus próprios privilégios. A justiça brasileira e o nosso parlamento carecem desse perfil que prioriza projetos para a nação em vez de estratégias de sobrevivência pessoal.

Caro (a) leitor (a), o momento exige um olhar clínico e implacável sobre aqueles que nos pedem o voto. Façamos uma provocação necessária: quantas vezes a pessoa que agora baterá à sua porta mudou de partido nos últimos anos? Existe alguma coerência entre o que ela dizia ontem e a legenda que ela abraça hoje?

Alguém que demonstra tamanha volatilidade partidária possui a idoneidade necessária para representar seus valores no Congresso ou nas assembleias? A mudança constante de posição é o maior indício de que o candidato sacrificará o seu bem-estar e a sua representatividade assim que surgir uma oferta mais vantajosa no “mercado” das coligações. Precisamos de representantes que tenham o perfil necessário para legislar com seriedade, zelando pelo direito de todos os brasileiros de bem de viverem em um país com respeito e justiça.

O eleitor tem o dever cívico de analisar a trajetória e o que o candidato já fez durante sua vida pública ou privada. Não podemos mais aceitar a retórica vazia e as promessas irrealizáveis que ignoram a Constituição. A esperança para 2026 reside na escolha de nomes que honrem a palavra empenhada e que vejam o partido como um compromisso moral, e não como um balcão de prostituição.

O Brasil precisa de grandes reformas, mas a primeira delas deve ocorrer dentro da nossa consciência como eleitores. Votar com responsabilidade é o único caminho para colocarmos o país nos trilhos, acabando com os privilégios e elegendo quem realmente respeita o sentido do pertencimento institucional. O futuro exige coerência. E a coerência começa na análise rigorosa da história de quem deseja o seu voto.

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Redação

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