22/08/2023
Mário Luchetta

Os Correios e os Intocáveis

A outrora orgulhosa estatal de logística hoje se assemelha a um transatlântico avariado, tentando navegar em um mar de lanchas rápidas e digitais


Luís Mário Luchetta (Foto: divulgação)

Diz o ditado popular que o cavalo selado não passa duas vezes diante da mesma porta. Na economia e na gestão pública, essa máxima é implacável. O Brasil, infelizmente, parece ter desenvolvido uma curiosa habilidade de observar o animal passar, admirar-lhe a crina, e deixá-lo seguir viagem enquanto discutimos o sexo dos anjos. O exemplo mais latente desse imobilismo custoso atende pelo nome de *Correios*.

A outrora orgulhosa estatal de logística hoje se assemelha a um transatlântico avariado, tentando navegar em um mar de lanchas rápidas e digitais. O prejuízo vai além do contábil — embora os bilhões de reais que drenam do Tesouro Nacional sejam um tapa na face do contribuinte — o prejuízo é de timing. Perdemos a janela de oportunidade de uma privatização áurea, quando o mercado de logística global fervilhava e a infraestrutura dos Correios ainda possuía um valor estratégico que a obsolescência tecnológica começa a corroer.

Mas por que, diante de números tão claros, o Brasil hesita? A resposta reside em uma morfologia de Estado que criou a figura dos “Intocáveis”.

Está longe de ser coincidência que o cidadão olhe para Brasília e veja semelhanças entre a blindagem de certas cúpulas, como as do STF, e a resistência em modernizar o modelo de gestão das nossas estatais. Criamos castas. Vivemos sob um modelo de Estado inchado que não serve ao público, mas serve-se dele. Nessas estruturas, a eficiência é secundária; o que importa é a manutenção do feudo, do cargo comissionado e da influência política.

Estamos diante de grupos que estão apegados ao poder e fazendo do umbigo a bússola para a nação. Enquanto o mundo discute entregas por drones e integração total via blockchain, nós ainda debatemos se uma empresa que perdeu sua função primordial de monopólio postal — em um mundo de e-mails e mensagens instantâneas — deve ou não ser mantida sob o manto protetor (e caro) da União.

A privatização não deve ser vista como um dogma de fé, mas como um imperativo de racionalidade administrativa. A fundamentação teórica é sólida: o Estado, por natureza, é um péssimo gestor de negócios competitivos.

Segundo a teoria da escolha pública, burocratas e políticos tendem a agir em favor de seus próprios interesses e objetivos de curto prazo, e não necessariamente visando o lucro ou a eficiência social. Quando uma empresa é estatal, o “dono” é o povo, o que na prática significa que ninguém é o dono. Se a empresa dá lucro, ele é diluído; se dá prejuízo, o Tesouro (você) paga a conta. No setor privado, a falência é o freio moral que impõe a competência. O Estado brasileiro está quebrado. Ele não tem capacidade de investir nos Correios o que uma Amazon ou uma DHL investem anualmente. Manter a empresa pública é condená-la à sucata.

Privatizar de forma inteligente, vale dizer, não é “vender o patrimônio”, é transferir a responsabilidade do risco para quem tem competência para geri-lo, permitindo que o Estado foque no que realmente importa: segurança, saúde e educação básica. É transformar um dreno de recursos em uma fonte de impostos e empregos dinâmicos.

Para isso, no entanto, precisamos enfrentar os intocáveis. Precisamos romper com a ideia de que certas instituições estão acima da crítica ou da necessidade de reforma. O Brasil do futuro não pode mais ser refém de corporativismos que olham apenas para o próprio espelhinho retrovisor enquanto o país tenta avançar pela rodovia da modernidade.

Um verdadeiro Projeto de País exige coragem para desinchar a máquina e para dizer “basta” àqueles que transformaram o serviço público em um balcão de negócios e privilégios. Os Correios são o sintoma de uma doença maior: a crença de que o Estado deve ser tudo, quando, ao tentar ser tudo, ele acaba não sendo nada para quem realmente precisa.

É tempo de tirar a bússola do umbigo e apontá-la para o horizonte. O cavalo selado da modernização ainda está à vista, mas ele não vai esperar para sempre.

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Redação

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