22/08/2023
Luana Esteche

Quando a crítica política vira campanha negativa antes da hora

Uma coisa é clara: a pré-campanha não pode virar licença para atacar adversários de forma calculada e antecipada

Luana Esteche (Foto: Divulgação)

A disputa de 2026 ainda nem entrou oficialmente em campo, mas uma coisa já está clara: a pré-campanha não pode virar licença para atacar adversários de forma calculada e antecipada. Uma decisão recente no Paraná recolocou esse limite no centro do debate e expôs um traço cada vez mais visível da política brasileira: a eleição, muitas vezes, começa antes, e começa pelo desgaste.

O aspecto mais importante desse tipo de decisão não está apenas em quem ganhou ou perdeu a discussão no caso concreto. Está no recado que ela envia. Há algum tempo, a política brasileira vem normalizando uma forma de antecipação eleitoral que não depende só de agenda pública, aparição em evento ou sinalização de candidatura.

Ela também se organiza pela fabricação da rejeição. Antes de apresentar propostas, muita gente prefere tentar colar no adversário uma imagem negativa. Antes de convencer, tenta contaminar. Antes de disputar apoio, trabalha para produzir repulsa.

QUANDO O DEBATE PERDE ESPAÇO PARA A DESMORALIZAÇÃO

Esse movimento empobrece a democracia porque desloca o centro da escolha política. Em vez de comparar projetos, trajetórias e prioridades, o eleitor é empurrado para reagir a rótulos, estigmas e acusações lançadas com potencial de desgaste prematuro. A disputa deixa de ser orientada pela ideia de convencimento e passa, cada vez mais, a operar pela lógica da deslegitimação.

Quando isso acontece, o debate público perde qualidade. Fica mais raso, mais nervoso e mais tóxico. A crítica, que deveria ajudar o eleitor a compreender melhor quem disputa poder, começa a ser usada como ferramenta para inviabilizar simbolicamente o outro antes mesmo do início oficial da campanha.

CRÍTICA POLÍTICA NÃO É PASSE LIVRE PARA DESTRUIÇÃO REPUTACIONAL

É claro que crítica dura faz parte da democracia. Quem está na vida pública precisa conviver com cobrança, confronto e linguagem incômoda. O problema não é esse. O problema começa quando a crítica deixa de mirar fatos, posições ou condutas e passa a funcionar como estratégia de corrosão da imagem do adversário com objetivo claramente eleitoral.

Essa é a fronteira que a Justiça Eleitoral volta a ser chamada a vigiar: a diferença entre debate firme e operação de desgaste; entre enfrentamento político e campanha negativa antes da hora; entre liberdade de expressão e uso da comunicação para induzir rejeição antes mesmo da largada oficial.

O DESAFIO DA JUSTIÇA ELEITORAL

Esse equilíbrio está longe de ser simples. Se a Justiça Eleitoral cruzar os braços, corre o risco de normalizar uma pré-campanha baseada em ataques, insinuações e destruição moral planejada. Se avançar além da medida, pode sufocar a crítica legítima e abrir espaço para acusações de censura. O desafio, portanto, não é escolher entre liberdade e controle. É saber separar crítica política real de estratégia de desgaste travestida de debate público.

Talvez esse seja um dos sinais mais fortes do nosso tempo: a eleição já não começa apenas quando a propaganda é autorizada, mas quando o ataque passa a ser testado como método. E uma democracia adoece quando os atores concluem que é mais eficiente esvaziar moralmente o adversário do que enfrentá-lo no campo das ideias.
Antes mesmo de a urna entrar em cena, outra disputa já está em andamento: a disputa para saber se a política ainda será espaço de convencimento, ou apenas uma máquina de desgaste.

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Luana Esteche

Jornalista

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