22/08/2023
Mário Luchetta

O Japão para além do gramado

De quatro em quatro anos, o mundo assiste a um fenômeno que insiste em nos surpreender, embora já devesse ser a norma.

Mario Luchetta (Foto: divulgação)

De quatro em quatro anos, o mundo assiste a um fenômeno que insiste em nos surpreender, embora já devesse ser a norma. Refiro-me ao hábito dos torcedores japoneses que, ao término de cada partida de futebol, sacam suas sacolas plásticas e recolhem meticulosamente o lixo das arquibancadas. Para o olhar ocidental, habituado ao espetáculo do desleixo festivo, a cena beira o inacreditável. Contudo, reduzir esse gesto a um mero capricho desportivo é ignorar o oceano de profundidade cultural que existe para além do gramado.

Aquela arquibancada limpa está longe de ser o resultado de uma ordem estatal de última hora ou de um marketing de aparências; é o fruto maduro de uma árvore cujas raízes estão fincadas na mais pura essência da cidadania e da responsabilidade individual.

Para compreender o Japão, precisamos abandonar a lente do individualismo hipertrofiado que hoje adoece o Ocidente. Imaginemos a sociedade japonesa como um relógio de alta precisão. Cada cidadão é uma engrenagem autônoma, com formato, tamanho e valor próprios. No entanto, essa engrenagem compreende que o seu movimento individual só faz sentido se contribuir para o funcionamento perfeito do todo.

Diferente do que pregam certas correntes ideológicas coletivistas, o respeito ao bem-comum no Japão não anula o indivíduo. Pelo contrário, ele o eleva. O zelo pelo espaço público nasce da premissa de que a propriedade coletiva é uma extensão da própria casa. Quando um japonês cuida da rua, ele não está servindo ao Estado; ele está servindo ao seu semelhante, ao seu vizinho, e a si mesmo. É o ápice da maturidade liberal e conservadora: a percepção de que a liberdade individual é indissociável da responsabilidade social.

Viver em comunidade não é diluir a própria identidade no coletivo, mas sim lapidá-la para que ela sirva de alicerce seguro para o outro.

Essa postura civilizatória não brota por geração espontânea. Ela é cultivada desde o berço e estruturada nas salas de aula através do conceito de Osouji — o momento em que os próprios alunos limpam suas escolas.

Enquanto no Ocidente muitas vezes terceirizamos a educação moral e cívica para o governo ou para burocratas, o modelo japonês nos ensina que a verdadeira ordem social se constrói na base: na família e na comunidade. É uma lição viva de que o progresso econômico e tecnológico — campos onde o Japão é soberano — é estéril se não for ancorado por um desenvolvimento moral correspondente.

Ao observarmos a comunidade japonesa, somos inevitavelmente confrontados com as nossas próprias fraturas sociais. Costumamos clamar por direitos esquecendo-nos, com frequência alarmante, dos nossos deveres mais basilares. Reclamamos da corrupção nos altos escalões, mas ignoramos o pequeno papel de bala jogado na calçada, o desrespeito às leis de trânsito ou a falta de empatia no transporte público.

A grande reflexão que o Japão nos propõe vai muito além do futebol. Ela nos provoca a entender que a verdadeira soberania de uma nação se mede pela saúde de suas relações comunitárias. Cuidar do outro não é um ato de caridade isolado; é uma estratégia de sobrevivência e prosperidade cultural.

Que possamos olhar para além das linhas do campo e enxergar que o verdadeiro “gol de placa” do Japão ocorre no cotidiano silencioso de seu povo. É hora de importarmos essa tecnologia social, compreendendo que um país forte e livre se constrói com ordem, educação e o entendimento definitivo de que o espaço de todos começa no respeito de cada um.

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Redação

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