22/08/2023
Brasil Política

Revelações do caso Master elevam tensão entre Moraes, Gonet e Mendonça

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelam contatos do ex-dono do Banco Master com integrantes do Judiciário e da PGR

STF (Foto: Arquivo/RSN)

As mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, transformaram a investigação sobre o banco em uma crise. O alcance agora atinge  integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR). No centro das revelações aparecem os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O caso ganhou força após o ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master, determinar que a Polícia Federal organizasse informações encontradas no aparelho de Vorcaro sobre autoridades. O relatório posteriormente teve o sigilo retirado e revelou uma proximidade até então desconhecida entre o empresário e Alexandre de Moraes.

Conforme a investigação, foram identificados registros relacionados a pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes. As mensagens também indicam que o banqueiro procurava o ministro para tratar do cenário das investigações sobre o Banco Master. E também chegou a demonstrar preocupação sobre a possibilidade de deixar o país antes da prisão. A Polícia Federal trabalha ainda com a hipótese de que algumas mensagens encontradas no telefone tenham sido encaminhadas diretamente a Moraes.

Outro ponto sensível envolve o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. As conversas recuperadas pela PF mencionam pagamentos e contratos milionários do Banco Master com o escritório. Há, inclusive, mensagens de Vorcaro cobrando internamente pagamentos e demonstrando preocupação com atrasos. A existência dessas relações comerciais, combinada com os contatos pessoais entre o banqueiro e Moraes, passou a alimentar questionamentos sobre eventual conflito de interesses. Até agora, entretanto, isso não significa que tenha sido comprovada interferência do ministro em favor do banco.

PAULO GONET APARECE EM MENSAGENS

As novas revelações passaram a atingir também o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em uma das mensagens, Vorcaro teria pedido a um interlocutor proteção de “Andrei e Paulo”. Para a Polícia Federal, as referências seriam ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao próprio Paulo Gonet. A suspeita dos investigadores é de que a mensagem tenha sido enviada a Alexandre de Moraes.

Outras informações divulgadas nesta quarta (2)  ampliaram a controvérsia. Conforme o relatório da PF, o advogado Ciro Soares, ligado ao Banco Master, enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Gonet. Posteriormente, ocorreram ligações entre o advogado e o banqueiro. A investigação também encontrou referências à participação de Pedro Gonet, filho do procurador-geral, em uma viagem para Londres relacionada a um evento que teria financiamento do grupo de Vorcaro.

Esses registros, isoladamente, entretanto, não comprovam que Paulo Gonet tenha concedido proteção a Vorcaro ou interferido nas investigações. O que fazem é aumentar a necessidade de esclarecer qual era a extensão da interlocução existente entre representantes do Banco Master e integrantes da PGR.

A situação ganhou uma dimensão adicional porque foi o próprio Gonet quem se manifestou pela nulidade da investigação sobre Alexandre de Moraes. A PGR sustenta que André Mendonça não poderia ter determinado, por iniciativa própria, o aprofundamento de uma investigação envolvendo outro ministro do Supremo sem autorização do plenário da Corte.

MENDONÇA CONFIRMA QUE RECEBEU

André Mendonça também passou a fazer parte da controvérsia depois da divulgação de que manteve contato com Daniel Vorcaro antes de assumir a relatoria do caso Master.

Nesta quarta (2), Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do empresário. De acordo com o ministro, o encontro tratou de um processo de interesse do Banco Master e ele apenas ouviu os argumentos apresentados pelo banqueiro. Mendonça afirmou ainda que posteriormente adotou posição contrária ao interesse defendido por Vorcaro naquele processo.

Outro registro divulgado pela imprensa mostra que, em fevereiro de 2025, o advogado Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça. Acompanhava uma mensagem indicando que estava atuando em favor dos interesses do empresário. Não há, até o momento, demonstração de que Mendonça tenha participado ou concordado com qualquer atuação irregular.

FACHIN REAGE

A repercussão chegou à presidência do Supremo. Edson Fachin afirmou nesta quarta (2) que o exercício de um cargo no STF exige respeito a limites institucionais. Ele indicou que deverão ser adotadas as medidas consideradas cabíveis diante das revelações.

O episódio agora reúne diferentes questões que precisam ser separadas. De um lado, está o conteúdo das mensagens e a necessidade de esclarecer até onde chegava a relação de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e outras autoridades.

De outro, existe uma disputa jurídica sobre quem poderia determinar o aprofundamento dessas informações. Gonet questiona a atuação de Mendonça, enquanto Mendonça pretende levar a controvérsia ao plenário do STF.

Até aqui, os documentos divulgados revelam contatos, pedidos, reuniões e relações que justificam esclarecimentos. Mas, no entanto, não permitem afirmar automaticamente que Moraes, Gonet ou Mendonça tenham praticado crimes ou interferido ilegalmente nas investigações.

O que já está estabelecido, portanto, é que o caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação financeira. Ao alcançar ministros do Supremo, o procurador-geral da República e a direção da Polícia Federal, o episódio passou a colocar em discussão também as relações entre grandes empresários e algumas das principais autoridades do sistema de Justiça brasileiro.

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Cristina Esteche

Jornalista

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