22/08/2023
Mário Luchetta

Quando vamos retomar a normalidade?

A coluna de Luís Mário Luchetta é um espaço destinado a textos analíticos e opinativos do autor. As publicações não refletem a opinião do Portal RSN.

Mario Luchetta (Foto: divulgação)

Há uma velha máxima na filosofia política que nos adverte: quando nos acostumamos com o absurdo contínuo, a sanidade passa a ser tratada como loucura. Ao observarmos o noticiário recente, que escancara em gráficos cruéis o recorde histórico de endividamento do governo, das empresas e das famílias brasileiras, somos forçados a fazer uma pausa reflexiva. Precisamos respirar fundo e questionar, com toda a gravidade que a nossa realidade exige: quando vamos, afinal, retomar a normalidade?

Para muitos cidadãos exaustos, a “normalidade” tornou-se um mero sinônimo de sobreviver no limite do cheque especial, equilibrando pratos para chegar ao final do mês. Contudo, sob o olhar de quem já viveu o suficiente para ver os ciclos econômicos punirem implacavelmente sempre os mesmos, afirmo com clareza: não há absolutamente nada de normal em um país onde o Estado gasta como se não houvesse amanhã, enquanto famílias e empreendedores pagam a conta de um banquete para o qual sequer foram convidados.

Imagine um imenso navio em meio a uma tempestade. O capitão — o nosso governo —, em vez de jogar o peso desnecessário ao mar para estabilizar a embarcação e salvar a tripulação, decide encher os porões com mais carga inútil. Ele suga os parcos recursos de quem já está exausto de remar. É exatamente isso que a farra do endividamento público representa na prática. Quando o governo se endivida de forma irresponsável, ele drena o dinheiro que deveria estar no mercado, disponível para o pedreiro reformar sua casa, para o pequeno empresário expandir o seu negócio e para a indústria inovar. O Estado brasileiro, inchado e ineficiente, tornou-se uma âncora de chumbo amarrada ao pescoço de uma sociedade que luta com bravura para não afundar.

A responsabilidade fiscal não é, nem nunca foi, um fetiche de economistas insensíveis. Trata-se de um profundo imperativo moral. O controle das contas públicas é a garantia civilizatória de que não roubaremos o futuro e o suor dos nossos filhos e netos para financiar caprichos eleitoreiros do presente. O fato de termos empresas e famílias batendo recordes de dívidas não é uma falha do livre mercado, mas sim a consequência direta de um ambiente asfixiante. Os juros estratosféricos cobrados do cidadão são o mero reflexo do risco soberano de um governo que se recusa a cortar na própria carne. O peso massacrante dos impostos e a inflação — o imposto invisível que confisca o pão dos mais humildes — são os verdadeiros fantasmas que assombram o jantar das nossas famílias.

Estamos caminhando, a passos largos e cegos, rumo à beira do precipício. E, para darmos um passo atrás, evitando uma queda livre cujas consequências sociais seriam catastróficas, não bastam mais os velhos remendos. Precisamos combater os discursos populistas que vendem ilusões mágicas sem qualquer lastro na realidade. Precisamos, com extrema urgência, de um autêntico projeto de país.

Um verdadeiro projeto de nação não se constrói com os olhos fixos na próxima eleição, mas sim com a visão voltada para a próxima geração. Um projeto estruturante exige coragem política para desinchar a máquina pública, privatizar o que não é atividade essencial do Estado, destravar as amarras da burocracia paralisante e aprovar reformas profundas. Acima de tudo, exige devolver ao indivíduo a sua liberdade inalienável de empreender e prosperar, sem ter o Estado atuando como seu sócio majoritário, punitivo e insaciável.

O cidadão brasileiro é, por natureza, admiravelmente resiliente. Mas a resiliência não pode continuar sendo a nossa única virtude; precisamos cultivar a indignação cívica. O despertar do nosso senso crítico é vital para que não aceitemos o endividamento crônico e a estagnação como um destino manifesto. A verdadeira justiça social, aquela que emancipa o indivíduo em vez de escravizá-lo em programas de dependência estatal, só nasce da prosperidade. E a prosperidade só floresce nos terrenos onde existem liberdade econômica, respeito à propriedade privada, segurança jurídica e ordem fiscal.

Retomar a normalidade significa resgatar uma premissa inegociável: o dinheiro público não nasce em árvores plantadas nos gabinetes acarpetados de Brasília; ele provém exclusivamente do suor do pagador de impostos. Que possamos, como uma sociedade civil organizada e intelectualmente vigilante, exigir que o leme da nação seja corrigido enquanto ainda temos tempo de manobra. Somente alicerçados em um projeto de país de longo prazo, que valorize quem efetivamente produz, poderemos ancorar nossa esperança em um porto seguro. Assim, deixaremos de apenas tentar sobreviver ao mês seguinte e voltaremos a sonhar, de olhos abertos, com o futuro grandioso que o Brasil merece e tem plena capacidade de construir.

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