22/08/2023
Blog da Cris Paraná Política

A régua moral de Filipe Barros muda conforme o palanque

Na RPC, candidato ao Senado relativizou ataques antigos a Moro e Deltan e tratou a condenação de Valdemar Costa Neto no mensalão como erro já pago

Deputado federal Filipe Barros, candidato ao Senado (Foto: reprodução/ Youtube)

A sabatina de Filipe Barros (PL) na RPC nesta quinta (3) revelou um candidato experiente, articulado e confortável quando fala das bandeiras que domina. Mas também colocou diante dele uma sequência difícil de ignorar. São as antigas convicções que parecem perder rigidez quando passam a atrapalhar a construção eleitoral do presente. É nesse vaivém, mais do que em qualquer resposta isolada, que está a parte mais reveladora da entrevista.

Com Sergio Moro, a trajetória praticamente desenha um gráfico. Filipe já o defendeu, depois rompeu de maneira contundente, atribuiu ao ex-juiz “falta de caráter”. E ainda atacou a aproximação com Deltan Dallagnol dizendo que faziam acordo “até com o capiroto”. Agora, Moro é candidato ao Governo e Deltan divide com ele a disputa pelas duas vagas ao Senado. Filipe insiste que as divergências ficaram no passado. É uma explicação eleitoralmente conveniente. Entretanto, insuficiente para responder por que um julgamento moral tão grave deixou de ter importância assim que o palanque mudou.

A elasticidade apareceu também na defesa de Valdemar Costa Neto. Confrontado com o passado do presidente nacional do PL, condenado e preso no Mensalão, Filipe ressaltou a importância para a construção do partido e argumentou que Valdemar já pagou pelos erros. É legítimo reconhecer juridicamente o cumprimento de uma pena. O problema político é a régua. Para adversários, Filipe costuma adotar linguagem severa sobre responsabilidade e moralidade pública. Já para o presidente do próprio partido, surge o benefício do tempo, da reparação e da segunda chance.

O DINHEIRO

E há uma contradição ainda mais objetiva: o dinheiro. Em 2021, Filipe chamou o aumento do Fundo Eleitoral de “escárnio”. Declarou-se contrário ao mecanismo e dizia que as campanhas dele não utilizavam esse dinheiro. Cinco anos depois, a candidatura ao Senado recebeu R$ 3,8 milhões da direção nacional do PL, provenientes do próprio Fundo Eleitoral. Não é uma mudança abstrata de opinião. É passar da crítica contundente ao uso intensivo do instrumento criticado.

Isso ganha dimensão especial porque Filipe pretende se apresentar como representante do Paraná no Senado. A campanha dele tenta combinar fiscalização do STF, segurança, infraestrutura e interesses estaduais. Há conteúdo nessa proposta e há experiência parlamentar. Mas existe um problema anterior às pautas: credibilidade política também depende de previsibilidade. Um senador não representa apenas ideias; representa critérios. E, quando esses critérios parecem oscilar conforme aliados, eleições e conveniências, o eleitor tem razão em perguntar qual Filipe prevalecerá depois da urna.

A RPC, portanto, acabou revelando algo maior do que uma coleção de frases antigas. Filipe Barros é eficiente na defesa do presente, mas ainda precisa explicar a sequência que o trouxe até aqui: aprovou Moro, condenou Moro e voltou a aprová-lo; atacou a composição com Deltan e hoje divide chapa com ele; condenou o Fundo Eleitoral como “escárnio” e agora recebe R$ 3,8 milhões dele; cobra rigor moral, mas relativiza o passado do presidente do próprio partido. Mudar de posição é legítimo. O que exige explicação é mudar repetidamente a régua e continuar apresentando-se como se ela nunca tivesse saído do lugar.

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Cristina Esteche

Jornalista

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