Para economista, liberalismo de Bolsonaro é generalista e ‘isso é preocupante’

"É liberal em que sentido? Para quem?" questiona o professor Fernando Franco Netto, de Guarapuava

O economista Fernando Franco Netto (Foto: RSN)

A proposta do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) de ver no liberalismo a melhor saída para a economia brasileira ainda não está clara para especialistas do setor e, por isso, é avaliada por muitos como preocupante. Autodeclarado entender quase nada desse assunto, Bolsonaro terá como ponto de apoio o superministro Paulo Guedes, pós-graduado na Universidade de Chicago e fundador de uma empresa private equity (ativo privado) e think tank (grupo de especialistas em estratégias e defesas) para defender teorias econômicas liberais.

Entretanto, de acordo com o economista Fernando Franco Neto diretor presidente da Fundação de Apoio à Unicentro (FAU), de Guarapuava, o programa proposto pelo governo é “muito amplo e generalista”, condição que ficou clara com a escolha dos ministros já anunciados.

“O superministro Paulo Guedes tem uma linha liberal e isso, de uma certa forma, é preocupante em função de vários fatores. É  liberal em que sentido? Para quem? Vai adotar que tipo de política?”.

Segundo o economista, se analisarmos o ambiente econômico mundial, ele disse que não vê nenhum país liberal.

“Mesmo a economia americana, que é a mais forte do mundo, vemos Donaldo Trump, empresário de sucesso, adotando medidas protecionistas com o mundo comercial. Dizer que a economia será totalmente liberal é falácia”.

Fernando diz que entende liberalismo no sentido de que a economia não pode ser tão estatizante, tão dependente de políticas de governo sem dar uma autonomia para as pessoas trabalharem, fazerem a sua renda, ter oportunidades.

“E assim pensando na categoria dos países desenvolvidos, semi desenvolvidos e não desenvolvidos, faz uma diferença enorme, quando se considera a palavra liberalismo”.

Segundo o economista, é difícil definir essa palavra quando se pensa no mercado ativo, com salário que realmente dê poder de compra às pessoas.

“Num país que tem uma demanda interna dinâmica, um país que possa ter um consumo interno positivo, sempre com um círculo virtuoso, com suas indústrias, os seus diversos setores e da própria questão social de inclusão, que é muito diferente nesses três níveis de mundo desenvolvido, semi desenvolvido e sub desenvolvido. Fica difícil neste momento perceber essa condição. Precisamos entender o que o governo está falando, mesmo porque ministros e assessores estão sendo contraditórios  na questão da previdência, de segurança, de impostos, de política de empregos”.

Jair Bolsonaro já disse que é preciso avaliar o papel de empresas estratégicas, se devem ser privatizadas ou não. Ele disse, entretanto, já ter se reunido com a bancada ruralista e dito que o país não pode “abrir mão” da segurança alimentar, caso permita a venda de terras brasileiras para estrangeiros.

O presidente eleito defende também uma agenda de desburocratização e desregulamentação da economia, o que deve dar uma “nova mexida” na CLT para estimular a geração de empregos. Porém, não explica como isso ocorreria.

FUSÕES

Quando o assunto é a fusão de ministérios em nome do enxugamento da máquina administrativa, na opinião de Fernando, se vai ser bom ou ruim, o futuro é quem vai dizer.

“O que é preocupante é que o nosso país é um país continental enorme, com densidade demográfica, sendo uma das maiores do mundo, com suas diferenças e com várias ações importantes”.

Segundo o economista, enxugar a máquina pública é louvável, “mas ele [Jair Bolsonaro] está tomando decisões antes de verificar essas prioridades”. Fernando cita como exemplo o Ministério de Ciências e Tecnologia.

“Da maneira como está sendo conduzida, levando o Ensino Superior para esse ministério, vai ter uma contribuição importante e que é fundamental para o avanço da ciência e tecnologia. Mas se não tivermos a parceria com as indústrias, com o setor público, não teremos avanço, porque o papel das universidades é fundamental para o desenvolvimento nas inovações, na ciência, na tecnologia. Então isso é preocupante”.

EDUCAÇÃO

Fernando também fala sobre o Ministério da Educação, que também será uma superpotência agregando o esporte e a cultura.

“Somos um país diverso e é bom ter outras pessoas dentro do próprio governo que possam conversar ter outras opiniões. Se vivemos num país democrático, a sociedade tem que ser ouvida e não é isso que está acontecendo. Agora, um grupo de 22 pessoas vai olhar tudo isso e tomar decisões. Tem que saber quais são os números do governo, quais são as políticas. Isso é importante, mas tem que ter a conversa com a sociedade”.

ECONOMIA

O superministério da economia também é um fator que deve ser visto com cautela, na opinião do economista e presidente da FAU.

“Países desenvolvidos já tem história em relação a isso, mas nós não. Temos um Planejamento, uma Fazenda, uma Indústria e Comércio que já estão discutindo e que a mídia coloca essa fusão de forma negativa porque as políticas em determinado momento são diferentes, e precisam de autonomia para ter a condução correta de cada setor. O país é muito grande, tem muita demanda”.

JUSTIÇA

O superpoder que será dado ao ministro da Justiça, Sergio Moro, também é questionado pelo economista.

“Até que ponto apenas uma pessoa terá discernimento sem conversar com a sociedade? A decisão será unilateral ou conjunta? Somos uma das dez maiores economias do mundo, temos produção, temos riquezas e só temos menos ministérios do que a China e o Canadá, que são duas grandes potências econômicas, cada uma com suas características. Mas e os órgãos que dão suporte com suas secretarias e que nós também temos? Então vai se dizer que está enxugando a máquina apenas para dizer que está cumprindo promessa de campanha? É preciso ter coerência, ter efetividade nas ações e fazer com que o país se desenvolva, sem esquecer que temos a nossa característica”.

PREVIDÊNCIA

Quando a conversa segue para a previdência, o economista lembra que algumas questões já colocadas pelo futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni, não deixa de ser “uma proposta interessante”, separando o que é previdência, aposentadoria, auxílios de outros subsídios, mas é preciso estudar cada característica. Porém, o governo já demonstra o interesse imediato de fazer isso aproveitando o atual congresso.

“A questão é que o setor público e outras são fundamentais para suportar essa política social. O país com essa instabilidade fica muito difícil promover determinado equilíbrio e muitas vezes o governo terá que assumir esse ônus. É muito sério. Tem que ser muito bem planejada para não haver remendos. O problema da previdência não é a aposentadoria, mas as políticas sociais que nós estamos sendo cobrados através dos impostos que não eficácia permanente nos governo. Agora, simplesmente fazer bravata e não perceber que o mercado de trabalho está com 12,5 milhões de desempregados, que não recolhem nenhum tipo de benefício, isso vai onerar a sociedade”.

E ele completa: “Se não tivermos um país mais desenvolvido pensando também na inclusão, nada vai avançar”.

O economista cita uma pesquisa do Ipea, que mostra onde está o gargalo no mercado de trabalho, citando que mulheres negras e jovens estão n a faixa de quem possui maiores dificuldades de acesso ao trabalho. Então continua o problema no nosso país.

“Por mais que não queiram falar em homofobia, xenofobia, discriminação racial, isso tudo acontece. Somos um país que viveu muitos anos na escravidão, na colônia, no império. Então é uma questão cultural da nossa história. Por isso, tem que haver uma conversa e não uma única pessoa para tomar decisões”.

MERCOSUL

Outros sinais contraditórios apontados pelo economista Fernando Franco Netto no governo de Jair Bolsonaro está relacionado ao Mercosul. O presidente eleito tem dados declarações de que buscará abertura em acordos bilaterais, mas descarta o Mercosul como eixo de política exterior e comercial. Porém, há quem diga que as declarações do ultraliberal Guedes “coloca a bola no campo dos sócios do Mercosul para que esses últimos, especialmente a Argentina, cortejem Bolsonaro para ele continuar”. Assim sendo, o presidente eleito estaria utilizando uma estratégia semelhante à adotada pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, para renegociar o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde 1994, com seus vizinhos Canadá e México.

Cinco anos depois, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, de um lado, e a União Européia, de outro, iniciaram as negociações, ainda hoje em curso, para conseguir um acordo comercial que, se confirmado, seria o mais importante já assinado pelo bloco europeu.

Na opinião de Fernando Franco Netto, o Brasil precisa ter um bloco importante e, se não der valor ao Mercosul, será um retrocesso.

“Não estou dizendo que não tem problemas. Temos que olhar para o nosso mercado. O nosso mercado interno é frágil, a nossa indústria não é competitiva, há uma política internacional que é frágil, a política de nosso câmbio está á mercê de especuladores. É aquilo que disse lá no início: a situação do nosso país é uma contradição. Estamos entre as dez maiores economias de PIB do mundo, com capacidade empresarial e de trabalhadores enorme e também pela nossa densidade demográfica e capacidade de produção, claro que vai dar uma renda boa no mundo. Então é fundamental fortalecer o mercado exterior. Temos a oitava economia do mundo e menos de um por centro do comércio internacional. Então isso é muito importante para estabelecermos políticas duradouras com nossos parceiros”.

Por tudo isso, diz o economista, o Brasil precisa de um governo ativo, consistente e que adote políticas públicas para inserção social já que o Brasil possui uma sociedade “extremamente desigual”, sendo uma das maiores do mundo, já que, de acordo com o economista, o país possui uma distribuição de renda que favorece os ricos.

“Precisamos de um governo eficiente e que trabalhe em prol da melhoria da qualidade de vida de todos”.

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